TELEFONE

(71) 3352-1112 / 3359-1112

Falaram de Nós

Súmula de uma Gênese

“No princípio Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra era solidão e caos. E as trevas cobriam o abismo: mas sobre as águas adejava o sopro de Deus…Então o Senhor formou o homem com o pó da terra e lhe insuflou nas narinas um hálito de vida, e com isso tornou-se o homem uma alma vivente”.

(Livro do Gênesis)
fachada-clinica_01Há sete anos, um grupo de médicos e paramédicos, sob o comado da Dra. Bela Zausner, se reúne diariamente no Hospital santo Amaro, gentilmente cedido pelo Dr. José Silveira, para celebrar esse milagre. É a Clínica Gênese, responsável pelo nascimento de algumas centenas de crianças, que de outra forma não teriam vindo ao mundo, e felicidade de igual número de casais sem filhos.

Instalado em uma salinha de 12m­2, o grupo foi se desvencilhando de outros compromissos e crescendo, ano após ano. Chegou o momento que a clínica atingiu sua maioridade e resolveu criar asas, conquistar seu espaço próprio. Não faltaram ofertas de edifícios altos, luxuosos e com nomes complicados, mas sem caráter, nem calor. O grupo já possuía um belo terreno na Alameda das Algarobas, mas que havia sido condenado pelos corretores e burocratas.

Lembrando velhas estórias infantis, em que cegonhas fazem seus ninhos nas chaminés de casas residenciais, este riscador, que é também amigo de Dra. Bela, resolveu mediar os legítimos anseios do grupo com as normas municipais. Foram consultas e tramitações as mais diversas, pelos labirintos dos cartórios e da Sucom: segunda via de escritura de partilha, reintegração de posse e ré-retificação do lote que havia emagrecido e sido invadido de tanto esperar, quitação de IPTUs perdidos, aprovação de AOPs, perícias, obtenção de alvará de construção e outras exigências protocolares. E tudo sob as investidas recorrentes de corretores “mui amigos” oferecendo pisos acarpetados com porteiro, elevador e antena coletiva, localizados nos Suarez mais chiques da Rótula da Rodoviária.
genese-laboratorio_19Seu projeto foi literalmente uma obra de bioengenharia, para compatibilização dos gens do Sem Gasup, Tac, e Vigilância Sanitária e de toda complexa carga genética de Bela. Foram implantados cinco projetos devidamente fecundados, dos quais vingou apenas um, com paternidade reconhecida pelos padrinhos e autoridades competentes. Mas sua gestação foi complicada, tubária, agravada pelos antojos e desejos da gestante, genial e geniosa.

A Dra. Bela não satisfeita da condição de mãe e provedora, resolveu dar uma de aparadora, autoaparadora. Foram mil reuniões com credores, instaladores, decoradores, prestamistas, marmoristas, seguranças, auditores, estucadores, anestesistas, cambistas e fornecedores que resultaram em demissões coletivas, revisões de projetos, reajustes orçamentários, defenestrações, anulação de contratos, separações, cancelamento de pedidos, troca de fornecedores, notificações, brigas, intrigas e bochinchos. Para segurar a adrenalina foram necessárias overdoses sucessivas de Lexotan, o que evitou algumas ameaças de aborto e enfarte. Dava dó ver a Bela atormentada. Mas felizmente a paciente reagiu bem à medicação.

Como acontece nesses casos, a gestante só foi entender, muito tarde, que parir um edifício é muito mais complicado e doloroso do que um bebê. E que teria sido muito melhor voltar a sua poltrona, apertar o cinto, relaxar e deixar o comando do Boeing à tripulação. A futura mamãe deve apenas curtir a gravidez e fazer a força no momento indicado, e que força!

recepcao-clinica_01Mas o anúncio do nascimento próximo fez mudar o humor da paciente, com a realização de animados de chás de cozinha, reuniões de comadres no segundo andar, troca de mimos e viagens a São Paulo para a compra do enxoval multicolorido do bebê, fazendo esquecer as agruras da gravidez de alto risco. Como acontece com toda recém-parida, jurou nunca mais transar, para não se “embarazar” novamente. Passado o puerpério, já está pensando em aumentar a prole, criar uma maternidade, um hospital talvez.

Alguns visitantes desatentos não entenderão o edifício, já que ele é côncavo e convexo ao mesmo tempo. Arredondado por fora, como um ventre próximo, como um seio. Cavado e aconchegante por dentro, com seu pátio interno, como um útero, um ovário ou, em sua falta, uma proveta.

Este é o espaço mais importante do edifício, o limbo, a última esperança para um punhado de mulheres à beira de um ataque de nervos. Ali, elas curtem cheias de confiança os rituais de exames que antecedem a implantação do embrião salvador. Alcançada a graça, voltam àquele pátio em romaria, a cada ano, para depositar o santinho do pimpolho no quadro dos milagres. Para os homens, estranhos no ninho, aquele gineceu é o inferno. Ali, esperam pacientes, sob os olhares indiscretos e complacentes do mulherio indócil, o chamado para a cópula solitária, com minutos contados, na sala dos espelhos. É a suprema humilhação, o escárnio público pelo mau cumprimento de suas obrigações maritais. E haja tesão!

recepcao-clinica_01Põe tudo isto, este espaço mereceu um tratamento especial. Em seu centro, está uma palmeira tropical que esconde uma víbora traiçoeira, cenário bíblico e monumento à fertilidade, a graça e ao veneno feminino encobre o pátio uma abóbada, que se abre gentilmente para captar uma nuvem perdida e a Lua em sua ronda noturna. A Lua, que move marés, conduz a seiva ao olho dos coqueiros e jequitibás mais altos, pode também fazer os milagres de drenas os hormônios mais renitentes e provocar um novo cio, uma ereção matinal, uma ovulação temporã.

Consultórios, laboratórios, centro cirúrgico e salas de recuperação distribuem-se a sua volta, em dois pavimentos. No último andar, fica a área de lazer, que ninguém é de ferro, a cantina e o salão de estudo e confraternização abrindo-se para o terraço do “happy hour”. Mas falem baixo, pois pode haver uma Bela adormecida na torre anexa, sob os olhares atentos de alguma fera à espreita.

Esta é a Clínica Gênese, um edifício sem mordomo de casaca, nem elevador com voz fantasma, mas meio mágico, redondo e recôncavo como um útero, onde um Velhinho penetra com as brisas da viração seu interior e sopra nas provetas da fada-madrinha um hálito de vida e amor, porque na Gênese todo dia é dia de criação.

Fonte: Por Paulo Ormindo de Azevedo (Arquiteto e professor da UFBA)